sábado, 4 de abril de 2009

Educação Superior

Lei do mínimo esforço

Enade revela que universitários estudam pouco em casa e não se dedicam a atividades que não sejam obrigatórias, como a pesquisa
04/04/2009 | 03:01 | Bruna Maestri Walter

Há pouca atividade acadêmica fora das salas de aula das universidades brasileiras. A maioria dos universitários estuda o mínimo em casa, não ultrapassando duas horas por semana, e não se dedica a atividades extraclasse nem à iniciação científica. O quadro, considerado por especialistas preocupante para as áreas de pesquisa e extensão acadêmicas, foi verificado nas repostas de estudantes concluintes ao questionário socioeconômico do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), que mede o rendimento dos alunos dos cursos de graduação.

Entre 2005 e 2007, o Enade avaliou 50 cursos e procurou descobrir como se comportam os estudantes. Em 42 cursos (84% do total) o exame verificou que a maioria dos estudantes se formou sem desenvolver nenhum tipo de atividade acadêmica além daquelas obrigatórias. Com relação à iniciação científica, em 43 cursos (86%) a maioria respondeu que não se envolveu em projeto de pesquisa, por falta de interesse ou de oportunidade.

Conceitos

Confira como funcionam as atividades extraclasse dos universitários:

Extensão universitária

Ação junto à sociedade. Por meio de eventos, cursos e programas, os universitários interagem com a comunidade e disponibilizam o conhecimento adquirido nas salas de aula e nas pesquisas desenvolvidas. O objetivo é transformar a realidade social.

Monitoria

O monitor é um aluno orientado por um professor que auxilia o docente nas tarefas didáticas, como preparação de aulas e trabalhos escolares, uma espécie de assistente. A atividade pode ser tanto voluntária quanto remunerada com bolsa.

Iniciação científica

É a introdução à pesquisa de estudantes de graduação. Representa o primeiro contato com a atividade de pesquisa acadêmica por parte do aluno, que recebe a orientação de um professor.
Livros e jornais também ficam em 2.º plano

Não são só os índices de envolvimento com pesquisa e extensão que são baixos entre os universitários. A leitura de jornais, de livros, o estudo de idiomas e a ida à biblioteca também não são frequentes, segundo respostas dos estudantes concluintes que responderam ao questionário socioeconômico do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), em 2006. A maioria (38,5%) apontou conhecimento praticamente nulo de inglês e 47,8% para o espanhol. No ano em que foi realizada a pesquisa, 78,9% afirmaram não ter lido mais que cinco livros, excetuando-se os escolares; 37,7% apontaram que leem jornal algumas vezes por semana e 45,2% que usam a biblioteca da instituição com “razoável” frequência. (BMW)
Estudantes preferem o estágio

Questionados se preferem se dedicar à iniciação científica ou ingressar em um estágio, os universitários são rápidos em escolher a segunda opção, alegando maior contato com o mercado de trabalho e possibilidade de remuneração. É o caso da estudante de Arquitetura e Urbanismo Nara Mayumi Simões Flórido, que está terminando o curso. No decorrer dos cinco anos do curso teve a oportunidade de participar de iniciação científica, mas se interessou mais pela vaga de estágio em um escritório de arquitetura. “Prefiro contato profissional”, opina.

A estudante de Fisioterapia Alessandra Pereira prefere o estágio para ter mais contato com as pessoas. “Na pesquisa você está meio sozinho.” As alunas do mesmo curso Ana Carolina Schewtschik, Camila de Souza e Izaura Moreira concordam que o mercado de trabalho está querendo mais prática que teoria. “Eu teria mais interesse no estágio porque você já está na prática e durante o curso já vai ter pesquisa”, aponta o estudante de Educação Física Roger Falavinha. (BMW)

Nos cursos com baixa participação em atividades de iniciação científica, o relatório do Enade mostra que o “resultado é muito preocupante, tendo em vista que os pilares da educação superior estão baseados no entrelaçamento das atividades de ensino, pesquisa e extensão.” Diante do porcentual elevado de alunos concluintes que declararam não ter participado de nenhuma atividade acadêmica extraclasse, o documento aponta ainda a necessidade de as instituições de ensino superior investirem mais nas atividades de pesquisa, extensão e monitoria.

Os dados do Enade de 2006 apontam ainda que 56,6% dos concluintes consideram que o curso deveria ter exigido mais do aluno e 39,5% acham que a exigência foi na medida certa. Somente 3,8% opinaram que ele deveria ser menos exigente.

Horas de estudo

Em 26 cursos, a maioria dos universitários disse se dedicar ao estudos, excetuando as aulas, uma a duas horas por semana – o tempo mínimo entre as opções. Outros 22 declararam ter estudado de três a cinco horas. Somente dois cursos ultrapassam oito horas por semana: Medicina (41,2%) e Arquitetura e Urbanismo (32,3%). “Nosso curso é bem puxado. Todo dia à tarde tenho trabalho para fazer, teórico e maquete. Na semana passada cheguei às 7 horas na faculdade e fiquei até as 22h30 fazendo maquete”, aponta a estudante de Arquitetura Isabelle Schoenberger.

Estudantes ouvidos pela reportagem concordaram que uma a duas horas por semana é um tempo curto de estudo. “Estudo quatro horas por dia e sinto necessidade de me aprofundar ainda mais”, afirma a aluna do segundo período de Psicologia Maria Cristina Ferreira, que pretende se dedicar à iniciação científica. “Faço só faculdade e consigo me dedicar. Se trabalhasse, estudaria menos.” Dos 50 cursos avaliados, em 30 a maioria dos estudantes disse que trabalha.

Universidades pagas

Grande parte dos estudantes que responderam ao questionário é de universidades privadas, o que influenciou nos resultados, segundo Antônio Lisboa Leitão de Souza, coordenador do grupo de trabalho de política educacional do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes-SN). Ele aponta que 90% da atividade de pesquisa no Brasil é feita em universidades públicas, financiada pelo Estado e com a responsabilidade de repassar à sociedade o investimento feito. De acordo com Souza, as instituições privadas “não oferecem nem priorizam, tampouco valorizam pesquisa e extensão”.

“A expansão desenfreada no fim dos anos 90 no ensino superior foi majoritariamente no setor privado e foi uma expansão meio descontrolada numa esfera privada, que não tem interesse em atividade de pesquisa. Como são instituições que têm fins lucrativos, fizeram da educação uma mercadoria e passaram a vender diplomas simplesmente”, afirma o professor. Ele critica que as instituições privadas não fazem pesquisa e não são cobradas pelo Ministério da Educação por isso.

Para Souza, todos perdem com a falta de pesquisa e extensão. O primeiro “perdedor” seria a sociedade, que receberia um profissional pouco qualificado. Já o aluno, segundo o professor, entra no mercado de trabalho com grau de qualificação aquém do que teve oportunidade e a instituição não se firma como produtora de conhecimento.

A professora aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Bartira Cabral da Silveira Grandi concorda que estudantes, professores e a comunidade são afetados pela falta de pesquisa nas universidades. Para Bartira, os alunos que conseguem bolsas de iniciação científica, que são poucas na opinião dela, adquirem uma formação diferenciada. “Eles têm uma formação mais completa. Acredito que, para aquele aluno que vai fazer mestrado e doutorado, o fato de ter feito iniciação científica o deixa mais preparado.”

Pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedores do Ensino Superior com instituições particulares verificou que entre as universidades 91% disseram atuar em pesquisa e iniciação científica. Entre os centros universitários, 73% apontaram estar engajados nestas práticas. O estuso conclui que “por fazer parte das exigências legais da sua configuração acadêmica” as universidades têm uma estrutura bastante desenvolvida no que se refere à pesquisa e iniciação científica.

2 comentários:

Jéssika Laís disse...

Obrigada Grazi, me fez entender mais sobre iniciação ciêntifica e extenção.

Fernando disse...

Parabéns pelo blog, excelente conteúdo!

Espero que seus alunos aproveitem!